IntrAdução
Sempre
gostei de escrever, desde os tempos de escola. Adorava fazer redação,
principalmente quando a professora já dizia o tema, porque várias
vezes sofria pra conseguir começar uma de "tema livre".
Mas depois que começava, aí eu embalava e escrevia com
gosto. Viajava. Viajava com gosto também nas histórias
em quadrinhos, ainda mais novo, quando não escrevia nada (eu
acho), mas já gostava de desenhar e de parar na banca pra comprar
"revistinha". Da Turma da Mônica, do Walt Disney, Recruta
Zero, Turma do Bolinha, Fantasma, Asterix... Muitas vezes passava tardes
inteiras de domingo lendo gibis na movimentada mesa do bar Dauphine,
em Copacabana, enquanto meu pai conversava com os amigos parceiros de
chope. Todo mundo rindo e falando alto e eu ali, na minha, concentrado
na leitura. Acho até que se eu tivesse continuado naquele pique
eu teria me tornado um rapaz muito culto.
Minha avó me contou
que eu aprendi a ler sozinho, aos quatro anos, com um livro ilustrado
chamado Os mamíferos, que ela estava lendo pra mim. Um dia, mostrei
a ela uma foto e li o nome do bicho em voz alta: "Or-ni-tor-rin-co".
Ela ainda não tinha chegado nessa página e eu nunca tinha
ouvido falar naquele bicho estranho de nome idem. Nem sei por que é
que eu tô falando disso, mas é que eu soube há pouco
tempo e achei interessante. Bem, este livro também nasceu mais
ou menos assim. Tivemos que esvaziar e arrumar um a montanha de papéis
no escritório lá de casa porque deu mofo. Mofo deu geral!
Atchim!! Saúde! Obrigado... Ih! Olha só isso aqui! Deixa
eu ver...
Comecei a encontrar vários
textos, poemas e até redações de colégio
que eu nem me lembrava que tinha guardado, a maioria eu nem me lembrava
de ter escrito! Que surpresa boa! Algumas coisas me fizeram voltar no
tempo quando eu parei de espirrar para ler. Outras pareciam totalmente
novas. A memória já tinha apagado, mas as folhas escritas
a mão resistiram ao mofo e a várias viagens e mudanças.
Pô, eu também não sou tão velho assim!!
Eu sei que não sou
tão velho assim, mas a idéia de tornar pública
a minha loucura foi imediata. Eu já vinha escrevendo uns poemas
intimamente, para publicar "algum dia", além de um
texto novo aqui, uma outra coisinha ali... Então, por que não
juntar logo tudo e fazer um livro livre e diferente? Pra que ficar guardando
o ontem e o hoje na gaveta? Rabiscos de uma alma insone, antigos ou
recentes, aflitos, carentes - coitados, não mereciam um pouquinho
de atenção?
Abri os disquetes, as pastas
e os cadernos e comecei a pescar nesse mar de idéias e palavras
tudo o que eu achava interessante por algum motivo. Deixei muito lixo
de fora, é claro, que o seu olho não é penico,
mas tentei ser o menos rigoroso possível, principalmente em relação
à forma, considerando que alguns dos textos tinham sido escritos
havia quase dez anos e o autor era um moleque meio maluco que nem imaginava
que um dia um maluco meio moleque iria meter a mão nas suas intimidades
e mostrar pra todo mundo.
Não pensem que é
algum tipo de exibicionismo barato lançar meu adubo no ventilador.
No fundo eu sou mesmo é tímido, senão não
gostaria tanto de escrever. Aproveitei o embalo para voltar a essa velha
mania de contar pro papel registros da minha vida e da minha fantasia,
não apenas em forma de música. Foi como reencontrar e
recomeçar uma velha amizade. E dessa "recaída"
é que acabou nascendo grande parte das páginas que se
abraçaram no livro que você está lendo agora, produto
final de uma experiência que não é transgênica
mas mistura diversos elementos, momentos e lamentos, e quem sabe pode
até gerar bons frutos... alimentos?!
Espero que pelo menos você
possa se entreter e se divertir como quem lê um ornitorrinco pela
primeira vez. Mas me leva pra mesa movimentada do bar ou pra qualquer
lugar, só não quero ficar enfurnado num velho escritório,
pois sou alérgico a mofo.
Minha mente é um livro
aberto. É um baú de plantação. É
somente uma semente. É só mente e coração.
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