Estrume na cabeça
É bom que fertiliza
Eu tenho até demais
Tem gente que precisa.
A merda aduba a
mente
E nasce alguma idéia
Plantando outra semente
Pensando em diarréia.

Aqui você
pode dar uma olhada em alguns trechos avulsos do livro, mas na verdade
não dá pra ter uma idéia direito do que é
o meu Diário Noturno baseando-se somente nestes trechos, porque
ele é um livro que mistura vários temas e várias
formas de linguagem independentes. Os poemas e os textos que o compõem
são muito diferentes entre si. Acho que eu falo um pouco melhor
sobre isso na "intradução"
, que está aqui no site também. De qualquer forma eu quis
mostrar pelo menos alguma coisinha aqui também, com a devida
autorização da Editora Objetiva*, pra matar a curiosidade
de quem ainda não leu nada.
É proibida
a reprodução de qualquer trecho do livro, incluindo estes
abaixo, sem a autorização por escrito da Editora.

Nessa vida
(trecho incompleto)
A vida é
uma caixinha de surpresas
E quantas surpresas ela traz pra nossa vida!
E quanta vida nós ganhamos de presente
Nessa caixa de surpresa e de chegada e de saída!
Ponto de encontro e despedida
A vida é uma estrada de subidas e descidas
Essa estrada estranha que parece tão comprida
Mas que passa tão depressa com essa pressa suicida
Pressa que me apressa quando eu desço na banguela
Forte feito o Mickael do Skate na favela
Solto na ladeira eu solto o freio de mão
E ando sem as pernas porque eu tenho coração
Eu vou com o coração e com o coração eu
vôo
Eu vou de coração e de coração eu dôo
o meu próprio coração e a vida que ele tem
que também foi doação, que eu recebi de alguém
- O presente valioso que é viver
Que a gente ganha e perde sem perceber
Que a gente adora e não sabe agradecer
Ou agradece e se esquece de fazer por merecer
A vida é
uma carta sobre a mesa
E quantas tristezas ela obriga que eu suporte!
E quantas jogadas nós erramos realmente
Nesse jogo de azar e sorte, nascimento e morte?
(...)
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"Carta para um fã" (trecho incompleto)
(...)
por favor não se arrependa, agora é o coração
que pede
o valor das coisas grandes de verdade não se mede
o amor é tão imenso quanto um gesto de carinho
tão intenso feito o canto de milhões de passarinhos
quando eu penso no meu canto eu solto um grito da garganta
mas se um grito é solitário, é só um grito,
não adianta.
quando eu canto esse meu grito, eu sinto mil metamorfoses
transformando um grito mudo numa voz de muitas vozes
e essa voz de muitos gritos é o grito muitas vezes
é um grito vezes gritos, voz mais vozes, gravidezes
é um parto que eu reparto, é o pão na mesa farta
é um gosto parecido com a voz da sua carta
gosto bom que me alimenta, fruto doce e com semente
vitamina minha vida, mas germina lentamente.
(...)
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Morte ao Racismo
Eu estava começando
meu primeiro (e praticamente único) ano de Comunicação
Social na PUC-RJ - onde me formaria em jornalismo, se não tivesse
abandonado os estudos quando assinei com a Sony, para me dedicar em
tempo integral à realização do meu sonho de gravar
um disco, no anoi seguinte (1993). - Era um "calouro" meio
desenturmado. e resolvi escrever uma espécie de texto "educativo"
sobre uma questão que me incomodava (e incomoda) muito: o racismo
- que inclusive se manifestava algumas vezes em frases idiotas rabiscadas
nas portas dos banheiros de lá.
Eu não conseguia (e não consigo) entender como uma pessoa
pode ser tão burra a ponto de praticar ou simplesmente aceitar
esse (e outros) tipo(s) de discriminação. Não queria
simplesmente desabafar, mas também chamar a atenção
das pessoas de todas as formas possíveis para aquela estupidez,
com a qual tantos compactuavam.
Antes de escrever o tal texto-panfleto (com o estranho título
"Cresça e se esclareça"), já tinha comprado
uma faixa de pano branca de quinze metros de comprimento e uma lata
de tinta preta, que usei para preenchê-la em letras grossas com
a frase "MORTE AO RACISMO", seguida do texto complementar,
em letras um pouco menores: "ACABE COM ESSA IGNORÂNCIA ANTES
QUE ELA ACABE COM VOCÊ". Ou algo parecido com isto.
O serviço foi feito no chão da garagem do meu prédio,
de onde parti para o estádio do Maracanã, à noite,
a fim de exibi-la na arquibancada durante a partda entre Botafogo e...
América? Ou seria outro time? Bom, isso não importa. E
não importava naquela noite também. Convoquei dois amigos:
Vinícius, negro e botafoguense (tudo a ver) e "Brigadeiro",
flamenguista e também negro, mas um pouco menos empolgado com
a idéia, além do meu irmão Tiago, como sempre um
grande companheiro e aliado em várias empreitadas e idéias
malucas. E quem nos levou de carro até lá foi o Nem, o
único que já era "de maior". Chegamos e desenrolamos
a enorme faixa de costas para o gramado, perto da grade, bem atrás
do placar central, e dali começamos a dar a volta completa no
maraca, lentamente, carregando e exibindo o nosso protesto para a torcida,
que estava obviamente muito mais interessada em ver o jogo, mas pelo
menos não vaiou nem tacou mijo na gente.
Durante a partida, a faixa ficou o tempo todo pendurada na grade, pra
ter a chance de aparecer na televisão durante a transmissão
do jogo. E no dia seguinte eu comprei todos os jornais pra ver se tinha
escrito "Morte ao Racismo" em alguma foto de gol.
Se não me falha a memória, conseguimos essa proeza após
pendurá-la na Apoteose do Samba, durante um festival de reggae,
quando o Nelson Mandela veio ao Rio e algum jornal acabou estampando
os nossos dizeres.
Por falar em jornais, uma vez um estudante da PUC telefonou para vários
deles e também para a TV Globo e pra Bandeirantes, entre outras,
avisando que no outro dia de manhã aconteceria uma "manifestação
contra o racismo" no pátio principal da universidade. Nenhum
jornalista apareceu para conferir, mas se fosse até lá
encontraria uma inusitada manifestação de uma pessoa só:
um aluno distribuindo um texto para todos os outros, e também
para os funcionários e professores, sozinho, com sua faixa de
quinze metros estendida no chão.
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Cresça
e se esclareça
"Crioulo quando
não caga na entrada caga na saída;
e preto parado é suspeito, preto correndo é ladrão."
Você acha
graça dessas piadinhas?
Bem, de qualque forma, você está, como todos nós,
precisando ler isto aqui:
Não podemos
ser esse povo desnorteado e desvinculado de suas raízes tão
ricas, comandado e manipulado por outras nações cujas
riquezas se concentram quase que só mesmo nos bens materiais.
É do primeiro mundo que importamos tudo aquilo que deveríamos
estar constituindo por nós mesmos, de acordo com o nosso próprio
passado histórico e cultural. É deste primeiro mundo que
importamos até os problemas e as fraquezas ideológicas
e intelectuais que tanto o perturbam. Um bom exemplo desse lixo que
se transporta de fora para dentro do Brasil é o racismo (desde
os tempos de Brasil-colônia).
Este racismo que,
perversa e sorrateiramente, vai crescendo na nossa sociedade - ou que,
no mínimo, vai se mantendo presente, sem dar demonstração
de decréscimo - graças a um sistema viciado que o suporta
através dos meios de comunicação altamente estrangeirizados,
das piadas e anedotas tão comuns sobre o assunto, e até
mesmo, e principalmente, graças ao seu caráter falsamente
inofensivo, que faz com que este preconceito seja transmitido de pai
para filho naturalmente no dia-a-dia, sem a menor preocupação.
Num país
onde a união da população mostra-se totalmente
necessária, esse tipo de discriminação só
prejudica a todos e não beneficia ninguém, sendo ainda
agravado pela constante crise social. Mesmo aqueles que possuem melhores
condições financeiras, e que por isso poderiam ser caracterizados
por uma maior capacidade de esclarecimento e um privilégio cultural
e intelectual, por incrível que pareça, demonstram estar
bem mais próximos da irracionalidade e da debilidade no que diz
respeito ao posicionamento nessa questão tão importante.
Absurdamente, essas pessoas das classes mais favorecidas são,
no nível pessoal, os principais elementos sustentadores e difusores
do racismo na nossa sociedade, assim como são os que mais facilmente
se entregam às imposições culturais, ideológicas,
estéticas e comportamentais vindas do primeiro mundo - fragilidade
que pode ser comprovada pela adesão freqüente a variados
tipos de modismos.
Não há
um exemplo a ser seguido no mundo de hoje. Sendo assim, é preciso
criarmos a nossa própria estrutura se objetivamos uma sobrevivência
digna na atual conjuntura.
Não será
com essa fraqueza encoleirada e importando todo o lixo que podemos que
definiremos uma trajetória de OrDeM E PrOgReSsO, pois para isso,
antes de mais nada, é preciso vestirmos uma bandeira e nos assumirmos
como o povo de um país singular do terceiro mundo, e não
como robôs ou fantoches do chamado 'mundo desenvolvido'.
E para começar,
vamos acabar com atrocidades como o racismo, eliminando qualquer tipo
de preconceito racial, regional ou social (coisas das quais devemos
nos envergonhar) e parando com as piadinhas que perpetuam essas idéias
absurdas contaminando os ouvidos de nossos filhos.
Vamos ressuscitar
a BRASILIDADE no coração e na mente de cada um de nós.
VAMOS MATAR ESSAS
IDÉIAS ANTES QUE ELAS MESMAS NOS MATEM.
GABRIEL CONTINO
ou GaBrIeL o PeNsAdOr,
Rio, 03 de maio de 1992.
apenas um humilde e jovem RaPpEr que parou para refletir sobre o seu
meio.
qUaL sErÁ
a SuA aTiTuDe????????????????????????????????
* Obrigado às
moças do xerox pelo uso das máquinas.
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